HISTORIA DA JUNTA DE FREGUESIA DOS MÁRTIRES

Conhece-se a existência de vilas romanas neste local (Século II a V) que seria local de férias para os habitantes abastados da cidade, então chamada Felicitas Julia.

Em 1147, quando da conquista de Lisboa aos mouros, foi instalado neste local o acampamento de cruzados ingleses que ajudaram D. Afonso Henriques.

Após a conquista, constituiu-se aqui , nesse ano, a primeira paróquia da invocação de Nossa Senhora dos Mártires, construindo-se a primeira igreja na colina onde hoje se situa a Faculdade de Belas Artes. A Freguesia comportava toda a zona ocidental da cidade e estendia-se por uma zona rural e ribeirinha até à actual Oeiras.

Em 1217 começou a construção do grande Convento de S.Francisco que, durante a Idade Média, foi o edifício mais importante da cidade. A urbanização do local fez-se no século XIV, em função da muralha fernandina, cuja principal porta, a de Santa Catarina, se abria onde é hoje o Largo do Chiado.

No século XVI, com a expansão da zona ocidental extramuros, o loteamento do Bairro Alto, a formação das paróquias do Loreto e de Santa Catarina, retirou aos Mártires todo o território fora da muralha. A população, estimada em cerca de 15.000 habitantes, nos meados do século XVI, desceu para pouco mais de 5.000, em 1620.

A identificação com o nome Chiado foi fixada no século XVII. Para alguns com origem no poeta quinhentista António Ribeiro Chiado, para outros porque o local identificava a existência de um estabelecimento de bebidas e petiscos pertencente a um galego com esse nome.

Fosse como fosse, o perfil social e económico foi-se modificando com o aparecimento de novas actividades ligadas ao comércio. A fundação da Livraria Bertrand (1747) e a instalação de modistas e confeitarias a partir do século XVII começou a atrair ao Chiado a aristocracia da capital e os visitantes estrangeiros.

O terramoto de 1755 destruiu grande parte do Chiado e da Freguesia dos Mártires. A reconstrução pombalina determinou um novo traçado. A sede da paróquia foi transferida para uma nova igreja construída na Rua das Portas de Santa Catarina (Rua Garrett). No topo dessa rua ergueu-se o monumental Chafariz do Loreto ( mais ou menos onde se situa hoje a entrada para o Metro), onde pontificava a figura do Neptuno- obra de Machado de Castro - que, depois de alguns anos de poiso na Praça do Chile, se encontra actualmente no Largo de D. Estefânia.

Com as reformas liberais, a partir de 1834, ocorreram grandes transformações ao nível da estrutura fundiária. Os conventos foram extintos, expropriados e reutilizados em novas funções. Assim se instalaram a Academia de Belas Artes, a Biblioteca Pública e, um pouco mais tarde, o Museu de Arte Contemporânea e o Governo Civil.

Pouco apouco foi nascendo um centro de cultura aristocrata e intelectual. Surgiram os hotéis, os cafés, os restaurantes, as livrarias, os teatros. A construção do Teatro de S. Carlos transformou o Chiado num polo de atracção urbana e num verdadeiro centro da cidade. Foi no Chiado que foi feita a primeira experiência de iluminação urbana com lamparinas de azeite (1780). A iluminação eléctrica data de 1903.

A dinâmica cultural intensifica-se com a Primeira República. Surgem novos cafés, novas livrarias, clubes sociais, novos teatros e, finalmente, os cinemas. O Chiado foi, até aos anos 60 do século XX, o centro da cultura lisboeta e um centro comercial de requinte. “Subir o Chiado” era quase um ritual , uma atitude de cosmopolitismo.

Pelas suas calçadas ressoaram os passos de Camões, Bocage, Nicolau Tolentino, Garrett, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Fialho de Almeida, Guerra Junqueiro, D.João da Câmara, Rafael Bordalo Pinheiro, Fernando Pessoa e, mais recentemente, Aquilino Ribeiro.

A partir desses anos 60, a terceirização intensifica-se e o espaço perde grande parte da sua população . O grande incêndio de 1988, que destruiu 18 edifícios foi, simultaneamente, a morte desse Chiado romântico e artístico e um arranque na modernização da zona, onde hoje se destaca todo um polo comercial e lúdico consumido por uma população jovem e com poder de compra que lhe confere uma nova vitalidade e não o deixa perder os pergaminhos de “Sala de Visitas” de Lisboa.

ARQUEOLOGIA COMERCIAL

No Chiado se estabeleceram, principalmente a partir do fim do século XIX, a nata das casas comerciais de Lisboa. Algumas, das mais antigas, como a Livraria Bertrand (fundada em 17479) , o “Paris em Lisboa” (1888) e o oculista “Ramos & Silva” ( 1884) são estabelecimentos centenários que, ainda hoje, se encontram entre os leaders das suas especialidades.

Em termos comerciais, e sociais, o Chiado (principalmente as Ruas do Carmo, Nova do Almada e Garrett ) foram o nosso Regente Street, Boulevard des Italiens, Gran Via, Unter der Linten. Marcos nos seus respectivos ramos, foram desaparecendo o requintado Restaurante e Casa de Chá Garrett, a Cervejaria Jasen ( fundada em 1855 e, já no 3º quartel, transformada em “Retiro da Severa”, imortalizado o filme de Leitão de Barros a “Canção de Lisboa”), o cinema Chiado Terrasse, o primeiro projectado exclusivamente para cinema e que abriu em 1908, a Padaria Inglesa (1907) ,de que ainda se conservam os vitrais arte nova, no Largo de S:Julião, a Kodak , com a sua fachada boiserie (Esquina da R.Ivens com a Rua Garrett), a Livraria Morais (no Largo do Picadeiro, onde hoje se situa o Café do Chiado) que, com a sua orientação católico-progressista editou uma revista de grande impacto para a época, “O Tempo e o Modo”.

Não podemos deixar de citar os “Estabelecimentos Jerónimo Martins” (abertos em 1792) que se consolidaram como a mercearia mais requintada de Lisboa.

O incêndio de 1988 levou, na sua extrema violência, outras lojas de prestígio, como a Pastelaria Ferrari, os Armazéns Eduardo Martins, o Valentim de Carvalho, a Papelaria Artex, a fotografia Marc Le Noir e a centenária Casa Batalha que, à época, figurava entre as 100 mais antigas da Europa.

Depois da tragédia, e por outros motivos, foram desaparecendo também os “topo de gama” das lojas de móveis e decoração – Casa Quintão e a Jalco – a recatada casa de chá Caravela, e as modas do Ramiro Leão, do Tatá Rodrigues e Os Dezassete.

TOPONÍMIA

Não fora a Freguesia dos Mártires e hoje já ninguém pronunciaria os nomes de sábios, botânicos e exploradores portugueses que, nos finais do século XIX, exploraram e estudaram o interior do sertão africano.

Nomes como Joaquim Paiva de Andrade, António Maria Cardoso, Roberto Ivens, José Anchieta, Hermenegildo Capelo, Alexandre de Serpa Pinto e Vítor Cordon, continuam a ser pronunciados diariamente embora, convenhamos, muito poucos saibam quem eram.


O CHIADO ACTUAL

O Chiado de hoje continua a caracterizar-se por um alta densidade cultural. Dentro da pequena área da Freguesia dos Mártires encontram-se Instituições como o Museu
de Chiado, o Teatro de S. Carlos, o Teatro de S- Luís, Companhia Nacional de Bailado, Centro Nacional de Cultura, Faculdade de Belas Artes, Grémio Literário, Casa do Algarve.

O Comércio renasceu com característica inovadoras onde, para além de lojas de charme, como a Benetton, Hermés e Cartier, existe um conjunto de estabelecimentos vocacionados para um público jovem. As esplanadas da Brasileira, Benard e Café no Chiado, são hoje um importante polo de atracção turística e da movida nocturna.

 


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